É fato que o ser humano está sempre em constante movimento ético, cultural, social e emocional. Mudamos constantemente de opinião. Aprendemos com tudo, erramos bastante... Mas também acertamos muitas de nossas investidas. Quando jovem, pensava que tudo era colorido, que todas as pessoas eram fadas. Percebia a natureza majestosa e cheirosa. Sentia-me uma princesa e imaginava um dia me tornar rainha. Casar, ter um homem que me amasse para ter-mos muitos filhos. Sonhava acordada com ele chegando à nossa casa, cansado do trabalho. Ele deitava no sofá e eu tirava seus sapatos, lhe servia uma refeição, e depois de comer, esse homem dos meus sonhos só fazia dormir. Eu não queria ser rainha! Eu era "Amélia", ou poderia dizer educada para ser a mulher ideal, submissa, tranqüila... Aprendi com a sociedade daquela época que a mulher veio ao mundo para servir sempre, e o pior, eu concordava com aquilo. E olha que nem sou tão velha assim!Acabei de completar 40 anos. Hoje as coisas ficaram bem diferentes. As mulheres revolucionaram o mundo, pelo menos o meu mundo. Nele, é a mulher a bola da vez. E porque não me incluir nesse grupo?!Fui à luta! Entrei para uma faculdade de Jornalismo para realizar um sonho da adolescência. Falando assim até parece fácil, mas entre pensar e agir houve um longo período de tempo. O que mais precisaria para completar o meu lado "Amélia"?! Bom, pode ter algo sim... Fui casada com um homem admirável por 24 anos, hoje já falecido. Mas mesmo assim, admirável, como qualquer ser humano estava longe da perfeição. Era um maravilhoso amante... Amava-me muito como eu desejei um dia... Ele foi meu primeiro namorado, meu primeiro homem, meu primeiro tudo. Ao seu lado aprendi a amar, a ser mulher, a ser mãe. Mas também foi um homem extremamente ciumento, possessivo e carente... Talvez por isso sentia-se culpado por não ter permitido que eu alçasse maiores vôos. Só entrei na faculdade porque o rapaz que namorava minha filha naquela época, ao fazer sua inscrição para o vestibular, resolveu me inscrever também. Dizia que eu era muito inteligente e porque não tentar... Fiz a prova por fazer, havia mais de vinte anos que eu parara de estudar, e passei em 3º lugar. Entrei com total entusiasmo, e para minha surpresa meu marido me apoiou.
Nossa convivência sempre foi muito pacífica, cheia de amor, carinho, respeito... Desde que eu não mais tivesse amigos, não fosse ao cinema, não saísse sem ele e ficasse em casa cuidando dos nossos filhos. À medida que um filho ia crescendo ele logo queria outro, são quatro. Tudo nós fazia-mos juntos, e eu, nesses muitos anos de casamento feliz, nunca tinha percebido o muro que havia se levantado entre eu e o mundo. Agora depois de sua partida me sinto um bicho criado em cativeiro de volta à Selva. Como um lobo acuado... Não sei muito bem como lidar com essa nova sociedade onde é a mulher que governa. É ela quem decide aonde quer chegar. Tenho tentado me adaptar a essa realidade que não é uma exclusividade minha, e é por isso que escrevo. Todo ser humano é muito parecido. O fato é que as histórias se repetem por todos os lados. Nunca é tarde para recomeçar... Tudo pode ser diferente... Eu era Amélia e hoje sou Loba.
NandaDiCássia
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