A menina que sonhava acordada
Havia uma menina bonita e sonhadora que morava perto da cachoeira Encantado, numa cidadezinha chamada Corinto. Seu nome era Risoleta. Naquela cidade esquecida pelo tempo, era pela estação do trem que chegavam as novidades. Quando aquele trem passava, ela sempre imaginava que seus sonhos poderiam estar na outra ponta daquela linha. Na verdade tinha a idéia fixa de um dia ir embora para a cidade grande, onde poderia ser miss. Mas como assim?! Aquela menina de pés descalços e beleza brejeira... Miss...
O trem trazia todos os meses a revista “Cruzeiro”, encomendada pelo grande fazendeiro da cidade, Ataíde Mattos, que não tinha filhos e era padrinho de Riso. A revista era para presenteá-la. Ela lia e via as notícias dos concursos de beleza várias vezes, à beira da cachoeira e ali sonhava... Sonhava... Sonhava...
Um dia, o fazendeiro levou uma grande caixa de presente. Era a revista junto de um rádio à bateria. Riso ficou tão feliz, porque assim pôde ouvir pela primeira vez o concurso de miss dos seus sonhos, em transmissão “ao vivo”. Sua mãe também poderia ouvir o programa Galo do Alvorecer.
Riso sonhava, o tempo todo, com sua entrada triunfante, vencedora do concurso de beleza mais importante do país, o “Miss Brasil”. Sua fixação era tanta que, quando andava pelo campo, tinha o costume de usar roupas tampadas, pedaços de pano que lhe cobriam o rosto e chapéu de palha para evitar o sol e conservar sua pele bem alva. Usava chá de hortelã, mel com frutas como mamão e abacate nos cabelos, e dizia que aquilo tudo os deixavam lindos e sedosos. Lavava o arroz e colocava a água para secar, fabricando seu próprio pó-de-arroz.
Era treze de junho de 1955. Sua mãe, dona Felícia, mandou que ela fosse apanhar lenha perto da linha do trem:
_ Risoleta, vá até o Rodiador e pegue alguns gravetos para esquentar o fogão, enquanto preparo os alimentos para a janta, mas não demore!
Ela foi, só que esqueceu da promessa feita e viajou novamente no seu mundo da imaginação. Soltou seus longos cabelos louros sobre sua pele alva, usou um pedaço de pano como manto e um graveto como cetro, enrolou um cipó fazendo uma coroa enfeitada com flores do mato, subiu na linha do trem e começou a desfilar. Taram... ram... ram. Taram... ram... ram. Enquanto isso, sua mãe preparava lá na sua casinha os ingredientes do jantar.
Foi quando, do nada, apareceu para Riso, um homem vestido como padre, de batina marrom, que lhe disse:
-Menina que sonha acordada... Saiba que um dia seus sonhos poderão acontecer. Talvez não da maneira como sonhas, mas será como um verdadeiro sonho!
Riso não entendeu nada daquilo que aquele padre dizia, e antes que ela pudesse lhe perguntar de onde era, da mesma forma que apareceu, ele desapareceu.
Entardeceu, e nada de Riso voltar. Dona Felícia, já preocupada, resolveu ir atrás. Ao se aproximar de onde mandara sua filha buscar lenha, percebeu que ali ela simulava a vitória do concurso na linha do trem e depois, conversava sozinha. Aquela cena a emocionou, deixando-a com os olhos rasos d’água. Ela não entendia o porquê dessa emoção. Sua filha só fingia ser miss, nada real, afinal elas eram pessoas do campo. Mesmo assim, dona Felícia não quis interromper. Resolveu ficar de longe, só mais um pouco, observando aquela linda moleca que só sabia sonhar.
Os anos se passaram e Risoleta acabou por esquecer seus sonhos malucos de juventude. Acertou quando imaginou que a realização dos seus verdadeiros sonhos estaria do outro lado da linha. Não foi miss Brasil, mas tinha conseguido sair do campo e viver na cidade com toda sua família. Teve três filhos e muitos netos. Ela acabou por se transformar numa mulher vitoriosa e feliz. Um dia, já era noite, quando dona Riso sorriu ao folhear uma revista antiga “Cruzeiro”. Lembrou-se dos seus velhos sonhos, daquele homem que aparecera para ela de maneira misteriosa no passado e de suas estranhas palavras:
“-Menina que sonha acordada... saiba que um dia seus sonhos poderão acontecer. Talvez não da maneira como sonhas, mas será como um verdadeiro sonho!”
Risoleta só agora tinha entendido as sábias palavras daquele misterioso homem. Pensou que tudo não poderia ter sido um sonho, e sim, a mais pura das realidades. Acreditava ter sido visitada por Sto. Antônio, o casamenteiro, santo de sua grande devoção, e que na verdade ele só queria dizer que um dia, ela iria se casar, e seria muito feliz.
NandaDiCássia